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Shocker – 100.000 Volts de Terror (1989)

Esse maluco aí é o matador sobrenatural de Shocker - 100.000 volta de terror

Esse maluco aí é o matador sobrenatural de Shocker – 100.000 volta de terror

“Shocker – 100.000 Volts de Terror” é um daqueles filmes cuja concepção estética não poderia partir de outra época. Lançado em 1989 e dirigido por Wes Craven, a obra tem várias daquelas idiossincrasias que o Cinema em Casa/Sessão da Tarde nos ensinou a amar: Subúrbio norte-americano com várias casinhas de famílias uma ao lado da outra, um protagonista adolescente órfão de mãe e filho de um pai opressor, tiras gordinhos de quepe e farda azul, uma universitária galega gostosa e muitas outras coisitas. Agora some isso à história de um assassino serial que faz um pacto com o demônio momentos antes de sua execução na cadeira elétrica e retorna dos mortos como um “fantasma elétrico” capaz de possuir os corpos das pessoas. Pronto, o resultado desta equação é diversão garantida.

Semelhante ao que já havia feito em “A Hora do Pesadelo” (1981), Wes Craven fusiona o terror ao humor negro a fim de encontrar o tom de “Shocker”, pensado inicialmente para ser uma trilogia sobre o tal “fantasma elétrico”, encarnado aqui na pele do homicida insano Horace Pinker (Mitch Pileggi, o Skinner de Arquivo X). O plano não deu certo e, com o insucesso de crítica e público, o projeto foi abortado. Puta que pariu. Mas aí vieram os anos 1990, as tardes ociosas ligadas no SBT e a elevação do longa àquele status cult brasileiro. E eu achei esse filme foda a começar pelo visual de Pinker – uma farda de prisioneiro laranja seccionada no peito por uma faixa quadriculada de preto e branco. Pileggi está louco no papel, mas adianto que bom mesmo é assistir dublado. O mocinho da história, o jogador de futebol americano Jonathan Parker (Peter Berg), ganhou a voz de Garcia jr, gigante da dublagem brasileira quase onipresente na boca dos protagonistas dos anos 1980. Se você tem entre 25 e 35 anos, escuta a voz dele e não se sente transportado à infância, pode encomendar seu caixão.

Se tiver um desses aí na sua casa, se prepare pra treta.

Se tiver um desses aí na sua casa, se prepare pra treta.

Mas, enfim, “Shocker” cativa pela construção de uma linguagem que não exatamente leva em conta verossimilhança da cena, mas sim o seu desdobramento gráfico – O que eu considero ser também uma característica inerente vários trabalhos de Craven, vide o próprio “A Hora do Pesadelo” ou “A Maldição de Samantha” (1986). Em determinado momento de 100.000 Volts de Terror, por exemplo, Jonathan chega ser perseguido por uma garotinha de vestidinho rosa pilotando um trator. Foda demais. Erguido sob o mesmo tipo de sensação que nos faz achar graça num meme de internet ou coisa assim, a obra destoa de muito do que é produzido na atualidade por abdicar de quaisquer explicações racionais para as situações que seguem em tela. Acredito, inclusive, que se uma criança assistir ao filme, sua compreensão sobre o desenrolar da trama não será diferente da de um adulto familiarizado com as injúrias da vida real…

E, se antes eu mencionei as caras e bocas de Pileggi na pele do vilão, não poderia encerrar este texto sem citar que o melhor mesmo é o sorrisinho do oficial Don Parker (Michael Murphy) quando é possuído por Pinker. Além disso, toda a sequencia de encerramento do longa pode ser considerada, no mínimo, “épica”, para usar um termo que tá na ponta da língua da juventude. Sem querer revelar muito, digamos que o confronto final entre Jonathan e o “fantasma elétrico” é como se você pegasse os melhores episódios do Looney Tunes, misturasse com Halloween de John Carpenter, e, para coroar, aplicasse uma generosa dose de Zoando na TV, aquele filmaço brazuca do fim dos anos 1990 estrelado pela gloriosa Angélica.

neura


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