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O que importa não são boas histórias

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Existe um clichê no jornalismo cultural de que “o que importa são boas histórias”. É uma afirmação categórica e vazia, que costuma brotar naquelas fervorosas discussões de mesa de bar sobre arte. Quando duas pessoas se metem na lama da argumentação inteligente até o pescoço, sempre vai vir alguém pra inundar os pobres ouvidos dos presentes com a tal frase, que eu considero uma variante pomposa do dito popular “blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.”

oqimporta_velhaIncrível como “o que importa são  boas histórias” tem o poder de encerrar um debate sem acrescentar nada à coisa alguma. De repente, ignoram-se todos os pontos de vista e possíveis reflexões em nome dessa verdade (leia-se: obviedade) universal. Lembra meus tempos de colégio cristão, quando toda briga no recreio era encerrada por uma vedete cristã, gorda e infeliz, que se enfiava no meio da meninada pra dizer que Deus não tinha ensinado aquilo aos homens. A questão, pelo menas pra mim, tá fincada bem longe do paraíso e sim bem fundo dentro do solo da nossa sociedade, assolada pelo recente fenômeno de polarização ideológica e patrulhamento político. Então, o que eu vejo não são ideias divergentes, mas sim um microcosmo discursivo em que dois (ou mais) egos disputam para ver qual deles será o astro de maior força gravitacional – E vence o mais persuasivo.

oqimporta_4Além disso, essa ausência de inteligência travestida de sobriedade intelectual também me leva ao velho Nietzsche, quando em seu famigerado Crepúsculo dos Ídolos, o Bigode se contrapõe à filosofia cartesiana e destricha o “Eu” numa relação de trocas com a sociedade. “E quanto ao Eu! Tornou-se uma fábula, uma ficção, um jogo de palavras: cessou inteiramente de pensar, de sentir e de querer!… que resulta disso? Não há causas mentais absolutamente! Toda a sua suposta evidência empírica foi para o diabo”. Afinal de contas, o que seria do Eu se não houvesse aquilo que me cerca para delinear o que NÃO sou Eu? Afinal, o que seria da justiça se não existisse o crime para fazê-la necessária? E, por fim, o que seria da literatura, do cinema ou dos quadrinhos se não existissem más histórias para que saibamos quando estamos finalmente diante de uma boa?

oqimporta_3Há cerca de três ou quatro anos, por exemplo, descobri a literatura de H.P. Lovecraft e passei meses imerso no trabalho do diabólico contista de New England. E, embora tenha conhecido a fundo toda sua obra, exceto por “O Caso de Charles Dexter Ward”, seu único romance, confesso que o estilo pomposo e excessivo de Lovecraft me levou ao cansaço e não à catarse. Retido a um arco narrativo protagonizado por um homem branco que investiga fenômenos misteriosos até se perder dentro da própria loucura, o autor consegue contar sempre, sempre, sempre a mesma história enfadonha, diferenciando uma da outra apenas por sua imaginação visual. Capaz de conceber criaturas monstruosas que em nada se assemelham às formas humanas, algo que só me lembro de ter visto na mitologia egípcia e nas lendas das grandes navegações, Lovecraft é um ótimo exemplo de alguém que nunca contou uma boa história, mas deixou um legado que inspirou gerações. Seus monstros povoam o imaginário popular dos amantes do terror e da ficção científica até hoje e se tornaram, inclusive, muito maiores quando escritos por outros autores.

Então, daí, podemos tirar o seguinte: O que importa não é contar boas histórias, mas sim compreender a relação que existe entre a obra, o contexto histórico em que foi publicada e sua capacidade de sobreviver ao fantasma do tempo, seja por seu mérito narrativo ou pela capacidade de se integrar à sociedade e servir como matéria prima do futuro.

neura


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