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A ascensão e queda dos serviços de brodagem

Uma típica estudante de comunicação atuando em seu modo "berserker" para não decepcionar a sociedade

Uma típica estudante de comunicação atuando em seu modo “berserker” para não decepcionar a sociedade

Dezoito anos e uma vida inteira pela frente. É mais ou menos isso que os coroas dizem sobre aquele pequeno grupo de jovens brasileiros que migra do ensino médio para as universidades ano após ano, após ano, após ano. Para muita gente, é só um rito de passagem. Para outras pessoas, é uma chance de redenção. Você sabe, mesmo que os anos da escola tenham sido cruéis, a faculdade representa a possibilidade de um novo começo – uma nova chance de se inserir socialmente. Lá dentro, ninguém vai saber sobre aquela ocasião em que você se mijou nas calças durante a aula de geografia ou sobre quando você vomitou por acidente em cima da garota mais gotosa da turma ou mesmo sobre a vez em que os meninos te deram uma surra tão violenta durante a aula de educação física, que você teve de passar dois dias em casa se recuperando. Na facul, toda sua merda de vida pregressa é anistiada.

E a primeira coisa interessante sobre isso é que, se o sujeito escolheu cursar engenharia, medicina ou alguma coisa (chata pra caralho, foi mal a sinceridade) assim, talvez ele precise estudar de verdade e sentir o amargo gostinho da vida real antes de chegar aos trinta. Do contrário, a faculdade tem grandes chances de ser aquilo que todos nós mais desejamos: um grande álibi para não fazermos nada. Ou para fazermos tudo. Os cursos de humanas às vezes parecem um sonho para a classe média. As disciplinas não requerem mais que dez minutos de estudo na véspera da prova e as aulas só ocupam quatro horas por dia. Para os artistas juvenis, é o Éden. É a desculpa perfeita para não se sentirem culpados enquanto passam o dia inteiro trancados no quarto compondo suas masterpieces. Ou então por estarem fumando maconha na rua. E é nessa época que começam as brodagens.

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Sabe como é, estagiário de comunicação social e afins já é acostumado a receber menos que menos e a maior parte dos alunos tem aquele pensamento prafrentex, de produzir, de se fazer relevante para a sociedade. Quando a gente tem 20 anos, somos todos berserkers. É tudo muito bonito enquanto a merda não vira boné. De estudante secundarista punheteiro e oprimido, você passa a ser um universitário engajado e emergente em busca de fazer o mundo um lugar melhor. E “fazer o mundo melhor”, é claro, é uma forma romantizada de querer um trabalho na área de cultura, amigos descolados e talvez um trepada fixa, porque o resto mesmo que se foda. Então, o sujeito conhece um editor fodão aqui, uma artista visual ali, depois um cineasta, um músico, etc. Vai a shows de rock muito loucos, peças de teatro com todo mundo nu, frequenta feirinhas orgânicas, exposições patrocinadas pelo edital do governo e muito mais. Quando cai em si, está aceitando qualquer coisa para fazer parte daquele grupo, pra ter a voz escutada. “Faz dessa vez de graça que o próximo a gente te paga”, alguém diz. Mas o próximo não chega nunca. “Não posso pagar, mas pelo menos seu trabalho ganhará visualização”. Visualização da sua mãe e talvez da sua vó. Ainda assim, o aspira segue firme, trabalhando de graça e aguardando o plot twist da sua vida profissional.

ascensao_corpo_2Quinto, sexto, sétimo período e nada. Aquele velho estágio de trezentos conto + vale refeição-e-olhe-lá e os freelas gratuitos em nome da arte. É quando começa a cair a ficha que uma vez formada, a esmagadora maioria dos alunos de humanas vai SIM se tornar uma esmagadora maioria de desempregados. Bate um desespero. O sujeito procura abrigo nos braços dos amigos, dos parceiros… Nada. Mensagens visualizadas e não respondidas. Ligações ignoradas. Um grande deserto que se estende por todo horizonte da vida que o aguarda. Um mergulho no vazio das impossibilidades. A verdade é que um estudante de comunicação muitas vezes faz a mesma coisa que um formado, mas sem custar dinheiros ou direitos trabalhistas. E, ao contrário do que o pessoal do instagram e do facebook diz, a gente não vive só de amor, amor, amor. A gente vive de dinheiro, dinheiro, dinheiro, que paga luz, luz luz e energia, gia, gia.  

ascensao_corpo_3No dia da colação de grau é aquele baixo astral. Um ritual asteca. Todos enfileirados e com as vestes da oferenda, sendos levados um a um para pular dentro de um vulcão adormecido, digo, sendo levados para assinar um papel que é o seu contrato com o desemprego. Com a vida real. Algumas pessoas riem e tiram fotos, outras se emocionam e comemoram. Alguns decidem pegar uma prainha na manhã seguinte ou então vão jantar fora num restaurante chique, tipo como quem escolhe a última refeição antes se apresentar ao exército em guerra. É uma merda. Pode chamar isso de histeria se quiser, eu deixo, mas continua sendo uma merda. E aí vêm os planos B. Estudar Direito pra fazer concurso, fazer concurso sem estudar Direito, trabalhar na Livraria Cultura como vendedor por 28 horas por dia, tentar um mestrado, aprender a redigir editais do Funcultura ou, no caso de 0,005% das pessoas, assumir um cargo da empresa de painho.

Acho foda que hoje se fale tanto em reforma de previdência, quando, guardadas as devidas proporções, muitos de nós, mesmo os com terceiro grau completo, já estamos fadados a trabalhar até morrer ou morrer trabalhando. É tudo uma formalização do sofrimento das classes menos abastadas e até das que podem pagar um cineminha fora do dia da promoção. E assim a vida segue rumo ao abismo, com a noção de que faculdade é nome-fantasia da grande ascensão e queda dos serviços de brodagem.

neura


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