Textos

O Ajudante de Satã (2004)

Satã e seu aprendiz. hihihi.

Satã e seu aprendiz. hihihi.

Sem dúvida, quando pensamos no período de ascensão da internet e da popularização do humor anônimo e sem barreiras morais, uma das primeiras coisas que me vem à cabeça são as redublagens de filmes clássicos. Quem não lembra do “Batman – Feira da Fruta” ou do “Star Wars – Cadê Meu Headphone?”. Pois é. Mas a verdade é que esses dois foram apenas a cabecinha, a pontinha do iceberg, o estopim da criação de todo um segmento do humor virtual popular até hoje – E de toda a enxurrada de redublagens que vem povoando a web desde então, apostaria que com certeza algumas das melhores sátiras vieram aqui do Recife, assinadas pela C.B.E. Produções. Com um trabalho pra lá de esporádico, porém brilhante, a turma quase ficou famosa de verdade com a redublagem chamada “Não Empreste CD a Jet Li”, repleta de referências à Florença dos Trópicos e ao nosso sotaque carregado. Hoje, acho que já nem produzem mais, o que é uma pena. Um de seus últimos trabalhos, porém, foi a reinterpretação de uma cena do longa “O Ajudante de Satã”, um filme concebido sob altas doses de insanidade e que foi o terceiro a ser assistido na minha maratona trash do Carnaval 2017.

Pois bem. Fui assistir ao filme já sabendo que se trataria de uma obra peculiar. Escrito e dirigido por Jeff Lieberman, o longa conta a história absurda de um garoto chamado Doug (Alexander Brickel), que, após se tornar viciado no jogo de videogame “O Ajudante de Satã”, passa a nutrir uma grande admiração pelo tinhoso. E aí, quando chega o Halloween e sua irmã vem passar o feriado com a família, acompanhada do novo namorado, o garoto tem uma crise de ciúmes, sai de casa para um passeio revoltado pelos arredores e acaba conhecendo um assassino mascarado que não fala, mas confirma ser o Satã que ele tanto idolatra. Essa sinopse não está muito precisa ou sequer bem escrita, mas isso também não importa, porque o que vale aqui é a esculhambação. E isso “O Ajudante de Satã” tem de sobra.

Jenna, a irmã do aprendiz do satã

Jenna, a irmã do aprendiz do satã

Não seria justo elencar o que funciona e o que não funciona nesse filme, mas de imediato eu poderia dizer que percebi uma cisão narrativa muito clara em sua estrutura e o enxergo dividido em duas partes. Na primeira, conhecemos os personagens e rimos com as cenas envolvendo Satã e Doug agindo como mestre e aprendiz respectivamente. Na segunda, o que rola é a transformação de um trashzão boa praça num slasher meia-bomba, quando a ação passa a ser centrada na personagem da irmã do menino, Jenna, vivida por Katheryn Winnick.

Com um orçamento equivalente a uns quatro pastéis de vento no japonês ali da esquina, “O Ajudante de Satã” veste a camisa da guerrilha em vários momentos. Isso é bonito. A fantasia do Satã, por exemplo, parece ter saído da minha festinha de Halloween da Terceira Série e eu não me espantaria se o sangue falso utilizado no longa fosse feito de toddynho, mel e corante. O próprio game que dá nome à obra tem um visual nada menos que fodástico, com gráficos de paint brush e contornos serrilhados. É muito mais legal que Minecraft e, na primeira metade do longa, todos esses elementos parecem flutuar em harmonia. Uma harmonia do Ruim, é claro, mas, ainda assim, uma harmonia.

Com todo tipo de ofensa a todo tipo de grupo, “O Ajudante De Satã” constrói uma ambientação relativamente coerente em sua desordem e consegue cativar o espectador à medida que vemos Doug e Satã aprontarem altas aventuras pelo bairro. O problema é que, a partir de determinado momento, Doug sai de cena e o longa parece tomar nota do absurdo em que está inserido. Então, quando Jenna se torna a protagonista e passa a conduzir as decisões que movem a trama, a única coisa que resta é aproveitar sua intensa beleza e gostosura. Criando uma dualidade carnavalesca de bem e mal através das fantasias do Satã e de Deus, “O Ajudante de Satã” consegue ficar ruim pra caralho muito rápido e se estende por uns vinte, vinte e cinco minutos de anti-clímax. E, embora desde o primeiro instante o longa seja narrativamente previsível, ao menos em sua primeira metade, a roupagem do absurdo veste suas cenas com classe.

neura


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