Neurotextos

Sangue e abadás tomam o Janela

janela_dia_cinco_principal

Penúltima noite de Janela em 2016. Perdi uma mostra de curtas devido ao trânsito, mas cheguei a tempo de assistir ao filme “Gente Bonita”, de Leon Sampaio, exibido no Cinema São Luiz. Foi a primeira vez desde o início do festival em que me senti realmente numa sessão do Janela. Vi penteados estranhos, roupas exóticas e percebi o despontar daquela energia característica da fusão cultural de tanta gente esquisita junta. Sentei num lugar à direita da tela, o que me preocupou pela tradicional explosão de agudos das caixas de som da sala, alocadas nas paredes laterais. Senti o frisson, a histeria coletiva, o calor oriundo do ar-condicionado deficiente e aquilo que eu estava esperando desde o princípio: a sudorese intelectualizada do cinema independente. Kleber Mendonça Filho fez as honras e chamou o diretor do longa para umas poucas palavras. E então as luzes se apagaram, as atividades cinematográficas foram iniciadas e um problema técnico mopou a exibição com menos de um minuto de projeção. Consertaram logo e, uma vez que a trilha de abertura do filme finalmente inundou os ouvidos do público, notei uma pequena sobra de graves na regulagem do som, que transmitia frequencias sonoras baixíssimas através do contato físico entre as pessoas e a estrutura do prédio. Fiquei surpreso positivamente, diga-se de passagem, mas vamos ao filme.

Um exemplo de folião encontrado no carnaval de Salvador

Um típico folião do carnaval de Salvador

Pensado meio que como um estudo etnográfico sobre a turma que curte o carnaval de Salvador nos camarotes da putaria, digo, da folia, o longa de Leon Sampaio é forjado a partir de imagens obtidas através de cinco paus-de-selfie distribuídos a alguns foliões pra lá de especiais. Acompanhamos a preparação, a curtição e o ‘after-party’ de cinco criaturas carnavalescas, algumas sozinhas e outras acompanhadas. E a primeira coisa curiosa sobre isso é que talvez a exibição de “Gente Bonita” tenha proporcionado a chance única de observar o que chegou mais próximo de ser interação direta entre dois grupos sociais tão antitéticos – os cults de um lado da tela e os playboys-santa-maria (ou algo que os valha) do outro. Na sala, o clima oscilava entre o deboche e a indignação dos presentes, que ora ria e ora repreendia as atitudes etílicas, elitistas e sexuais das trepeças carnavalescas mostradas no filme.

E então, lá pelo meio da sessão, essa situação toda começou a soar na minha cabeça como um tipo de cenário pré-conflito medieval. Lembrei da ambientação das batalhas do Rei Arthur de Bernard Cornwell, em que dois batalhões passavam mais tempo se xingando que de fato lutando. No Janela, era como se público e tela estivessem separados por um campo de batalha ideológico, se insultando mutuamente enquanto o momento do combate não vinha. Quando um folião conseguia agarrar alguém após aquela típica abordagem carnavalesca de “chegar-chegando-junto-já-beijando”, o público do São Luiz fazia cara feia. Porém, quando alguma das figuraças do longa leva um fora, a turma do Janela ria. Independentemente disso, acredito que “Gente Bonita” seja uma obra bem acabada por não se render à juízos de valor tendenciosos na sua montagem, que poderia facilmente ter ridicularizado aquele pessoal mostrado na tela, comprometendo algo fundamental para um longa do gênero: a análise do fenômeno como o fenômeno é e não como gostaríamos que fosse.

processo de fabricação do pau-de-selfie, equipamento utilizado nas filmagens de "Gente Bonita"

processo de fabricação do pau-de-selfie, equipamento utilizado nas filmagens de “Gente Bonita”

janela_dia_cinco_cult

Exemplo da espécie dos cults do Janela

Uma vez que os créditos de “Gente Bonita” subiram à tela do São Luiz, precedidos por uma cena hilária envolvendo um folião que há muito tempo já estava chamando urubu de meu lôro, começou então a contagem regressiva para o clássico da noite: nada mais, nada menos que “Robocop – O policial do futuro”, de Paul Verhoeven. Saí do cinema e fui com minha gloriosa amiga Olívia jantar na rua Mamede Simões, onde fica o Bar Central, reduto de cults, músicos, cineastas, estudantes do CAC, entusiastas da arte, intelectuais verdadeiros ou meramente ilustrativos e de um parmegiana de frango cujo molho de tomate levemente ácido se tornou um clássico na minha vida. Numa noite de transgressão, resolvemos abrir mão do frango e pedimos um xburguer cada um, que até tava legal, mas deixou aquele sentimento de arrependimento, não vou mentir. E aí fazer uma refeição no Central é aquela coisa, a probabilidade de você encontrar alguém conhecido é de 128%, o que de certa forma nos atrasou um pouco para o retorno ao cinema São Luiz, que fica a mais ou menos 1km de escuridão, sordidez e nóia da Mamede.

Quando chegamos ao velho cinema, a fila ainda estava surpreendentemente pequena, o que não nos salvou de encontrarmos mais uma dezena de conhecidos. E aí, antes de que atingisse a esquina que fica por trás do São Luiz, o agrupamento foi posto pra dentro. A essa altura, eu já não era mais um jornalista solitário e vários amigos meus haviam aparecido para assistir ao banho de sangue que é “Robocop – O policial do futuro”. Fiquei otimista, especialmente pelo lugar que conseguimos, situado bem no centro da sala. Vieram as palavras do organizador, uma historinha mais ou menos engraçada, comentários sobre o equipamento de som e vídeo do cinema, blá, blá, bá, e finalmente o filme mais aguardado do Janela 2016 começou. Há quase três anos, quando robocop ganhou um remake dirigido pelo brasileiro José Padilha, escrevi uma análise aprofundada no site da Revista Continente sobre aquilo que acredito ser o maior trunfo da obra de Verhoeven – a perda e a busca pela humanidade do protagonista Alex Murphy, que ressurge como um ciborgue após ser alvejado brutalmente por uma gangue de criminosos. Então, sem querer alongar demais este texto, vou deixar linkada aqui a minha análise para que os interessados possam ler, visto que de lá para cá o filme continua sendo o mesmo.

neura


Compartilhe

Copyright © 2015