Neurotextos

Janela Internacional de Cinema 2018 – Parte 1

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Era possível sentir, durante a sessão de abertura do décimo primeiro Janela Internacional de Cinema do Recife, uma nuvem de resiliência e angústia pulverizada sobre o público. A sensação de estar vivendo os últimos dias do que em breve será conhecido por “outrora” tem sido algo impossível de relevar dentro dos meios de arte e comunicação. E, atestando o tom de melancolia dos últimos meses, o festival este ano teve sua duração reduzida à metade e seu viés político explicitado dentro da programação de forma ainda mais veemente que o habitual. Aquele clima de euforia e animação característico do evento parece ter ficado no passado. Então, até aí, a experiência estava sendo uma grande merda, mas finalmente chegou o momento em que os vitrais do clássico Cinema São Luiz foram iluminados, as luzes, apagadas, e o longa de abertura do Janela 2018, o baiano “Abrigo Nuclear”, de 1981, enfim, projetado.

Confesso que no meu juízo, a imersão da experiência cinematográfica espanta todos os males da alma, nem que seja para que eles retornem dali a umas duas horas. Não foi diferente.

“Abrigo Nuclear” é um sci-fi que evoca ares de “Fuga do Século 23” e “No Mundo de 2020”, só que produzido no Nordeste – e o Nordeste é bom demais. Escrito, dirigido e protagonizado pelo cineasta Roberto Pires, o filme conta a história da rebelião iniciada por um operário que, habitante de uma sociedade comandada por lideranças autoritárias e forçada a viver no subsolo em decorrência da contaminação radioativa da superfície, acaba descobrindo algumas verdades e se vê obrigado a abrir os olhos do povo. É uma metáfora política para o ciclo de opressão e liberdade que o Homem enfrenta em sua eterna construção cultural e social. Ou seja, é uma obra atual e dialoga com o momento e a esculhambação vivida pelo nosso Brasilzinho contemporâneo.janela_2

Apesar dessa leitura intelectualizada, não dá pra deixar de lado que o visual e as locações de “Abrigo Nuclear” parecem ter saído diretamente de “O Fantástico Jaspion”, o que, pra falar a verdade, é fantástico. A fabulação de uma narrativa, mais até que seu discurso político, é o elemento que delineia o tom e o grau da imersão do fruidor. Nesse sentido, muitas obras de arte com viés político pecam por passarem do ponto, colocando a mensagem na frente de sua elaboração estética. No cinema independente, ainda mais em Pernambuco, isso é comum. No caso de “Abrigo Nuclear”, porém, a voz do filme fala mais alto e, por oitenta e seis minutos, somos realmente imersos numa história autocontida cuja fabulação e o subtexto estão equiparados.

Pra quem está aqui no Brasil, consumindo fortemente tudo que vem de fora, e, muitas vezes, negando aquilo que está ao nosso redor, como citei recentemente no texto sobre as idiossincrasias de Halloween, às vezes soa até ridícula a ideia de que possa existir um sci fi brasileiro. Bem, “Abrigo Nuclear” consegue ser exatamente isso e, em vias de completar quarenta anos, o longa permanece atual, levando em consideração a escassez de recursos e a tecnologia da época. Ironicamente, porém, é uma obra sobre se rebelar contra o sistema e deixar pra trás um passado de opressão e conquistar um futuro de liberdade. No Janela e em grande parte do território nacional, infelizmente, o sentimento parece ser precisamente o oposto. Como disse Falcão, “nem tudo está perdido, porque muita coisa ainda há de se perder”

janela_3Na sequência, foi exibido o primeiro programa de curtas-metragens internacionais do festival, chamado “Estamos Todos Juntos”. Sessão de curtas é legal porque você entra sem saber nada sobre nenhum dos filmes e acompanha narrativas enxutas, muitas vezes experimentais, criadas a partir de recursos financeiros pouco chamativos e criatividade muito aguçada. Nenhuma das três obras me chamou muita atenção, destacando “Uplândia”, um documentário britânico sobre uma comunidade mineradora na Libéria que, após seus dias de glória, hoje vive à sombra do passado e sob a iminência da pobreza. Apesar da fotografia bonita e da questão humanitária latente, a narração em off do doc parece ter sido feita por um cadáver. E, aliás, nem um filme sobre uma agência funerária merecia tamanha inexpressividade na fala.

Os outros dois curtas, a produção alemã/palestina “Democracia Aqui não há” e o brasileiro “BR_Rip”, sinceramente, só me fazem pensar numa coisa: DEVE TER SIDO MUITO RIVOTRIL. Ô povo pra fazer um par de filmes tão doido. O primeiro é um mockumentário sobre um tal de BDSM político, com uns malucos que sentem tesão em submeter seus votos e opiniões políticas às ordens de uma dominatrix. A ideia é massa, mas a execução peca na profundidade do assunto, nunca estabelecendo um tom para a narrativa, que oscila entre um humor sem graça e uma seriedade meio gaiata. O segundo curta se trata  do “confronto entre uma ‘barata monstruosa’ e uma ‘heroína gigante’”, conforme descrito no release oficial. Bem, só de ler isso, dá pra imaginar que o filme tem tudo pra ser bom, mas, na prática, como disse meu amigo Rodrigo, “parece mais uma partida de Final Fanatsy, desses RPG de combate por turno”. O curta, que até tem uma mensagem política e tal, acaba soando mais como um experimento formalista que como uma obra devidamente finalizada. E, pelo menos pra mim, uma luta de monstros gigantes fora do Japão sempre tem muito potencial pra dar errado.

De forma geral, em se tratando do famigerado ambiente de sociabilidade real e virtual que o evento cria, vi alguns jovens de comunicação soltando postagens nas redes sociais com a tradicional legenda “começou”. Apesar disso, desconfio se o que começou mesmo foi o festival ou o princípio do fim do mundo. Até lá, vamos assistir filmes e tentar não noiar com o futuro da nação e o imposto predial.

neura


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