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Janela Internacional de Cinema 2018 – Parte 2

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Cinema acessível, café insociável – Eis o lema de minhas idas ao Cinema da Fundaj, por onde tradicionalmente se estende a programação do Janela Internacional de Cinema do Recife. Meu amigo Rodrigo gastou 3 reais pra mergulhar na magia cinematográfica da sessão de curtas “Tomada Única”, apanhado de produções exibidas ao longo de dez anos do Festival Internacional de Cinema Super de 8 de Curitiba, e 35 para molhar um bolo de banana num café expresso. A discrepância que existe entre o preço do café e o preço do ingresso é uma coisa interessante, pois, somados os valores, denuncia que uma ida ao Cinema da Fundaj com direito à água indaiá, cafezinho e croissant custa quase a mesma coisa que uma meia-entrada do Cinemark com promoção do McDonalds num shopping center qualquer. A diferença realmente é o ambiente e a seleção de filmes inegavelmente mais atrativa.

Em se tratando de curadoria, inclusive, o Janela não deixa a desejar. A mostra “Tomada Única”, por exemplo, trouxe uma coletânea de 13 pequenos filmes de Super 8 que em praticamente nenhum outro lugar da cidade nós poderíamos assistir. Nessas narrativas curtas, o que encanta é a criatividade e a experimentação dos realizadores e, neste caso, junta-se a isso toda a questão da limitação técnica imposta pela própria câmera Super 8.

Ainda assim, entre um filme e outro, é possível perceber similaridades estéticas para além da textura da imagem e da plasticidade originada pelo uso do dito equipamento. Frequentemente, os curtas fazem referência à era do cinema mudo e solidificam suas narrativas exatamente como se fossem obras filmadas antes da década de 1930. Apesar disso, o toque contemporâneo está lá, como no filme (cujo título e o autor não encontrei na programação oficial do evento) que conta a história de uma mulher que descobre a traição do marido quando ele esquece o smartphone com whatsapp aberto em casa. Já em “A Festa na Casa de Suzana”, de Christopher Faust, a narrativa é comandada por uma narração em off e uma sequencia de cortes secos que nos guia pela trajetória de um jovem de 22 anos, inseguro e romântico cuja vida e os anseios não são ambientados em nenhuma realidade diferente da minha ou da sua.

janela2_1Também tem as doideiras e os experimentalismos visuais, que dominam a maior parte das obras. E, embora dificilmente alguma delas seja memorável, não deixa de ser inspirador imergir no processo criativo de outras pessoas e nas ideias de quem, com tão pouco, consegue voar tão alto.

Depois, foi o momento de se entregar ao desbunde técnico e narrativo do longa “Los Silencios”, de Beatriz Seigner. Rodado num lugar chamado “Ilha da Fantasia”, porção de terra situada entre Brasil, Peru e Colômbia, o filme conta a história de uma mulher que, após comer o pão que o diabo amassou, foge com os filhos na tentativa de reestruturar sua vida. Uma obra impecável, que utiliza os próprios habitantes da “Ilha da Fantasia” para compor seu elenco e traduz com muita emoção o sentimento de resiliência e a vontade de viver.

Difícil de analisar sem revelar minúcias e pontos importantes da trama, “Los Silencios”  conta com uma fotografia cuja representação narrativa demarca, desde o princípio, através da saturação das cores, o desfecho e a trajetória dos personagens. Além disso, é um filme que mostra a face oculta da violência e da pobreza, não se atendo ao grafismo das imagens, mas buscando retratar, por meio de pequenos recortes do cotidiano, como é a vida das pessoas afetadas pela guerra do narcotráfico na América Latina. Inclusive, é um filme humanitário e político, mas que nunca se entrega à plena subjetividade e explicita muito bem sua mensagem. Aqui no Brasil, é comum se deparar com obras semelhantes, mas que, por não abrigarem uma construção narrativa tão bem elaborada, deixam em aberto seu discurso e se sustentam naquela velha e (vulgar) conversa de “o espectador é que tem que interpretar o filme”.

“Los Silencios” é uma obra de arte absolutamente emocionante e comedida, que jamais se entrega à histeria de um discurso ególatra, mesmo se intervencionado por um tom antropológico e documental na investigação de um povo e sua cultura, consegue entregar atuações sólidas e um arco narrativo bem elaborado. Por fim, é um longa cuja relevância provavelmente vai se perder entre a elite intelectualizada e que nunca será interpretado ou sequer chegar ao grande público. É uma pena.

neura


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