Neurotextos

Janela à paisana

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Da mesma forma que o período entre abril e junho faz brotar um sorriso diário no rosto da minha mãe graças à colheita anual do caqui e do kiwi, as semanas compreendidas entre setembro e outubro provocam esguichos de tesão nas cuecas e calcinhas dos cults do Recife devido ao alto índice de festivais de música e cinema. Seja alavancada pelo surto coletivo com as atrações indies do No Ar Coquetel Molotov ou pela efervescência da solene erudição despertada pelo MIMO Olinda, a verdade é que o segundo semestre sempre reserva surpresas – E a mais aguardada por mim é a programação do Janela de Cinema Internacional do Recife.

O festival, que está na sua nona edição em 2016, é inegavelmente divertido para todo mundo, até para jovens outsiders da zona sul, com problemas de sociabilidade e que costumam rejeitar idas ao centro do Recife. Sediado no icônico Cinema São Luiz e no recente Cinema do Museu, o Janela ramifica sua programação em sessões de curtas, mostras competitivas nacionais, internacionais, mesas, festas, debates e toda essa babilônia multiplataforma que rege a contemporaneidade. E, para além dos fins cinematográficos, o evento ainda proporciona uma aventura etnográfica sem igual, se, é claro, você tiver um pouco de criatividade correndo nas veias.

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Esse cara é o protagonista de “Eles vivem”, que morreu ano passado e só estrelou o filme porque Kurt Russel não pôde.

Acho que mostras de curtas-metragens são muito interessantes, especialmente pra sacar o trabalho de gente talentosa (ou não) se virando com poucos recursos. Também acho que é legal ter a oportunidade de assistir a um filme romeno/tcheco/iraniano ou qualquer coisa assim na grande tela, mas, sem dúvida, o chamariz do festival são mesmo as sessões de clássicos do cinema, trazidos em película e remasterizados para exibições onde reinam o frisson e a histeria coletiva. Tudo começa na fila de entrada, que dá voltas no cine São Luiz e agrupa cults de todas as partes da RMR. O cheiro de mijo universalizado e abstraído, a iminência de encontrar alguém que você (não) quer ou e até mesmo uma skol latão meio quente são coisas que brotam na minha memória quando lembro dos momentos pré-clássicos. E aí só repassando rapidamente algumas coisas que eu vi nos últimos quatro ou cinco anos, posso citar “Alien – O oitavo passageiro”, “Tubarão”, “Lobisomem americano em Londres”, “Metrópolis” (com trilha ao vivo!!!!!), “Era uma vez no oeste”, “O massacre da serra elétrica” e “A mosca”.

Em 2014, quando eu trabalhava na Revista Continente, cobri o festival pela primeira vez e foi foda. E já que o Neurose já está no ar há uns poucos meses, me credenciei novamente. Por isso, deixe sua barba crescer ou faça um coque, prepare seu vestido florido ou sua camisa quadriculada, calce seu tênis all star e sua chinela de couro, recheie sua bolsa tiracolo com cigarros de maria joana, panfletos informativos e vamos sacar a programação 2016. Puta que pariu, tem “Robocop – O policial do futuro” em duas sessões e ainda vai rolar “Eles vivem”, que é um sci-fi lo-fi obscuro-fi do John Carpenter-fi. Também tem uma série especial sobre Shakespeare, com “Henrique V”, “Rei Lear”, “Macbeath” e outras adaptações de obras clássicas, além de muitos, muitos curtas-metragens. Então, a partir de hoje, dia 29, faça como eu, se disfarce de cult, suprima o ódio no seu coração pela pinta de canastrão intelectual e vamos nessa sacar o IX Janela Internacional de Cinema do Recife. Até o fim do evento, vou tentar relatar minhas experiências diárias aqui no Neurose. Então, um abraço.

neura


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