Neurotextos

Hidden Tracks!

 

nadaCertas urgências tiram a gente do sério. Outras nem tanto. Ser atingido por um raio, por exemplo, é suave. A gente sabe que pode acontecer. Numa situação dessas, a lenha é baixada de vez. É uma cipuada e óbito. O problema que fica é jurídico e o inferno são os outros. O amigo do meu padrasto era doutor em neurociência quando torou a alça da sandália havaiana, enfiou a cara num coqueiro e quebrou o pescoço. O tio do meu amigo era procurador federal quando sofreu um infarto fulminante parado no sinal vermelho. Quem tava atrás ainda achou que era sacanagem, desviou e passou xingando. Quanto a isso, tudo certo, tudo bem. Para casos tranquilos e insolucionáveis como esses, deixo aqui registrado meu testamento.

Em primeira instância, uma vez morto, gostaria de ser empalhado, de preferência portando uma pujante e destacada ereção nas calças e um florete espanhol na mão direita. Depois, gostaria de ser enviado como presente a Maria da Conceição, prima da minha mãe que pediu dez mil reais emprestados a ela e disse que não ia pagar porque precisava mandar a filha mais velha pra Disney na viagem do colégio. Dito isso, façam com que meu cadáver preservado se torne um ornamento de condição jurídica imutável quanto a posse e que, para sempre, eu fique exposto na sala de Maria da Conceição, com meu florete apontado para o alto e minha chibata dura apontada para qualquer outro lugar. De preferência, para a testa da dona.

Em segunda instância, gostaria que meus HD’s externos fossem lidos e interpretados por pessoas inteligentes e que alguém de mínimo engajamento publicitário e sensibilidade poética cuidasse para que todas as minhas obras inacabadas fossem lançadas. Este texto, inclusive, é sobre isso: Obras inacabadas. Tudo até agora foi apenas um pequeno preâmbulo para fazer vocês entrarem no clima. E é o seguinte: obras inacabadas significam uma urgência daquelas citadas no parágrafo de abertura: as que nos tiram do sério.

Vamos imaginar que há dez anos, eu era dez anos mais jovem, havia introduzido a cabecinha na maioridade penal há pouco tempo e estava apaixonado por uma das mulheres mais lindas e encantadoras do mundo. Cada vez que eu a via, meu peito se enchia de uma vontade irracional de compor músicas de amor – E, segundo consta no meu repertório pessoal e no catálogo das sensações e experiências que vivi, uma música de amor só tem duas representações sociais: chifre ou ausência de qualquer tipo de contato sexual – Naquele tempo, eu não havia sido corno, mas tinha feito mais de trinta canções de amor. No sentido mais subjetivo possível, cada tentativa era como um passo rumo ao próximo degrau da grande escada que não leva a lugar nenhum. Aliás, a escada se chama vida.

Com o tempo, a masturbação, os degraus subidos e os passos dados, muitas coisas mudaram. Aquela urgência, infelizmente, não. A mesma sensação que inundava o peito e me tirava do sério nunca respeitou a passagem dos anos e o envelhecimento da carne. O segredo para conviver com isso se revelou imaginar que o resto das coisas chatas são, na verdade,  tranquilas. Por exemplo: ir ao banco e pegar duas horas de fila, dezenas de idosos lentos, crianças chorando e ar condicionado quebrado, pra mim, é tranquilo. Mas não se ocupe em me provocar: Eu não vou fazer isso pra nenhum de vocês. Cada um que lide com seus demônios. O meu demônio se chama música.

A vontade incessante de fazer música é o apogeu e a queda da minha vontade de viver. Fora o exemplo da musa inspiradora, inclusive, não saberia explicitar quais os gatilhos para essa necessidade súbita, que só cessa para poder retornar no próximo momento oportuno. Vivendo às sombras dessa mecânica, contei trezentas sessões de gravação entre composições terminadas e não-terminadas nos últimos seis anos. Gravei e foram masterizados três discos de minha autoria. Nenhum lançado até agora por motivos de: o processo de compor, arranjar e gravar é o meu diazepam. O resto é tudo uma sucessão de imbróglios mercadológicos, “engrenáticos” e sociopatas.

Digamos que, para o caso a urgência dois, aquele que é fatal, tranquila e sem aviso prévio, eu deixaria no mundo uma coleção do que meus amigos têm chamado de… “Hidden Tracks”. Tipo como se a minha vida fosse um disco tocando e a minha obra fosse o conjuntos das faixas escondidas depois do meu óbito precoce e brutal. Dada a minha atual condição de saúde, porém, é improvável que eu tenha uma morte súbita e, dada a minha idade atual, porém, é improvável que eu consiga proceder dando passos na grande escada que não leva a lugar nenhum sem ver meus trabalhos publicados.

Não estou falando deste site. Isto é um laboratório de gêneros literários e jornalísticos que é visto por uma média de nenhuma pessoa por dia. Estou falando das minhas obras, que, após muito esforço, verão a luz do dia em breve. E, na realidade, eu só estou me mobilizando para que isso aconteça na intenção de que alguma delas seja capaz de arrecadar, mesmo que minimamente, fundos para financiar a gravação do meu próximo disco.

Então, que fique registrado aqui nos anais. Coisa número um em ordem de importância: meu quarto disco é o único que interessa, mas vou precisar lançar os três anteriores para viabilizar a verba e a credibilização social da nova gravação e, quando ele estiver gravado, provavelmente vou estar mais interessado no quinto. Coisa número dois em ordem de importância: caso eu morra amanhã de manhã durante a minha corrida matinal na orla de Boa Viagem, vítima de um acidente fatal envolvendo um escorregão em merda de cachorro ou qualquer outra coisa idiota, me mandem pra Maria da Conceição e façam com que ela nunca jamais se livre da minha carcaça ereta.

neura


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