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Doutor Estranho

Enquanto eu estava infiltrado nas entranhas culturais do IX Janela Internacional de Cinema do Recife, estreou em mais de 1200 salas em todo o Brasil o novo filme do Marvel Studios, “Doutor Estranho”, dirigido por Scott Derrickson e estrelado por Benedict Cumberbatch. Então, no meu primeiro dia pós-festival, fui ao multiplex mais próximo de casa sacar o longa, já que se existe uma coisa nessa vida que eu li até fazer calos na vista essa coisa são os gibis e o legado de Stan Lee e sua turma.

Cheguei ao cinema do Shopping Center Recife faltando quinze minutos para às 21h, quando estava marcado o filme. Eu achava que nesse momento de crise econômica, recessão e o cacete, o movimento no local estaria pelo menos moderado, mas o que encontrei foram duas filas quilométricas, uma para comprar ingressos e outra para entrar na sala. Diante da imensidão da dupla de serpentes humanas, me senti minúsculo e desamparado como uma galinha solta num viveiro de cascavéis. E aí, acuado e sem a proteção da minha mãe, corri para as máquinas de compra exclusiva com cartão de crédito, minha última esperança. Ainda estou me perguntando quem foi o cretino que programou aquela merda para só aceitar débito em conta se a porra da máquina tinha crédito escrito no próprio nome até um dia desses. Marina, minha namorada, pagou o meu bilhete e nós corremos pra sessão. No caminho perguntei a uma funcionária do cinema se havia alguma razão específica para aquela quantidade exorbitante de gente no cinema. A cara que ela fez ao me responder que “todo dia de promoção era assim” eu vou levar pro túmulo como uma das mais simbólicas expressões de ódio pelo próprio trabalho que já presenciei. Então, finalmente dentro da sala, a decepção mais uma vez veio quando notamos que a tela de seleção dos lugares dentro daquela maldita máquina de débito era diametralmente diferente da disposição dos assentos da sala da vida real. Sentamos num lugar ruim pra cacete, situado à esquerda da puta que o pariu.

Minha sessão de "Doutor Estranho" foi como este belo cupcake de tolete

Minha sessão de “Doutor Estranho” foi como este belo cupcake de tolete

Começou a chegar gente, gente, gente, gente, gente. Em geral, era aquela galera típica da Zona Sul, com rapazes egressos do Cbv e do Motivo, de barba aparada, calçando tênis da puma ou da nike e vestindo roupinhas de grife de shopping. Havia muitos deles com as namoradas e havia muitos mais com gangues de amigos. Mas enfim, as luzes se apagaram e a sala escureceu, dando início à sessão. O problema é que ela escureceu e nunca mais clareou, já que a projeção do UCI estava mais escura que os calabouços de Satanás. O 3D, que em geral prejudica as cores e a vida do filme, também estava presente, cagalizando completamente a minha experiência cinematográfica, como se fosse uma pequena cerejinha ressecada num grande bolo de liquidificador recheado de merda. E aí, com a lombar travada, com as pernas espremidas entre a minha fileira e a da frente (tenho 1,98m) e sem enxergar porra nenhuma, comecei a tentar – e só tentar – entrar na atmosfera de “Doutor Estranho.”

Embora seja um leitor quase diário da Marvel e da DC desde sempre, só conheci o personagem Stephen Strange no desenho dos anos 1990 do Homem Aranha, num arco fenomenal em que os roteiristas misturaram antagonistas clássicos do Cabeça-de-Teia, Venom e Carnificina, com a turma mística do Doutor Estranho, Barão Mordo e do vilão Dormammu. No filme de 2016, estes três últimos personagens estão presentes naquela que é uma típica história de origem do cara que viaja ao oriente em busca de redenção. O cara, é claro, é o Doutor Stephen Strange, vivido pelo talentoso Benedict Cumberbatch. Dito isso, vamos às considerações.

Doutor Estranho foi criado por Stan Lee e Steve Ditko, mesma dupla do Homem-Aranha, na revista Strange Tales #110, de Julho de 1963. A trama básica, como já falei, girava em torno do arrogante cirurgião Stephen Strange, que após perder parcialmente o controle das mãos num acidente automobilístico, acabava indo ao Oriente em busca de ajuda. Lá, ele descobria Kamar Taj, comunidade dos feiticeiros da Terra regidos pelo Mago Supremo. Então, uma vez treinado nas artes místicas, o ex-arrogante e agora sábio Doutor Estranho passava a defender o planeta de ameaças transcendentais. Seu maior inimigo era o tal Dormammu, governador da Dimensão Negra, que basicamente visava criar o caos no nosso planetinha azul. No filme de 2016, é mais ou menos a mesma coisa.

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O visu original de Dormammu é mais ou menas assim

E o primeiro aspecto a ser ressaltado sobre o longa dirigido por Scott Derrickson é que quem quer que tenha sido o responsável pelo design de produção está de parabéns. Lisérgico e sessentista, o universo místico criado por Steve Ditko em 1963 aparece representado de forma exuberante no filme deste ano, com destaque para a ambientação da Dimensão Negra, formada por longos filamentos de textura indefinida que ligam bases esféricas cintilantes de antimatéria (?). Além disso, o efeito caleidoscópico de prédios rebatidos e engolidos por eles mesmos, mais ou menos como em “A Origem”, de Christopher Nolan, também está presente e é um deleite visual, mas não aconselho você assistir se estiver bêbado.

E, se visualmente o filme faz escorrer lágrimas de alegria dos olhos do público geek, “Doutor Estranho” conta com um roteiro conciso, elaborando de forma pragmática uma narrativa clássica em três atos. Isso, por sua vez, é algo que considero sempre interessante, pois acredito que existe alguma magia (rs) em contar uma boa história sem que sejam necessários adornos estéticos ou reviravoltas formalistas. Ainda assim, não posso deixar de citar que os vinte minutos finais deixaram aquela sensação de Deux-Ex-Machina, de anticlímax. Quando somos revelados à grande ameaça do filme, construída até então como uma figura imponente e aterradora, o que vemos é um personagem cuja inteligência rivaliza com a de um tomate e cujo visual digital diferente do original criado nos quadrinhos decepciona. A meu ver, em toda primeira metade do longa, porém, quando estamos conhecendo (e curtindo) a personalidade canastrona de Strange e o universo fascinante de Kamar Taj, o filme caminha bem para cacete, mantendo uma cadência narrativa entrecortada por momentos pontuais de humor e grafismos tridimensionais.

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O Olho de Agamotto, uma das relíquias místicas usadas pelo “Doutor Estranho”

A escolha do diretor Scott Dericksson de utilizar com frequencia planos-detalhe das mãos de Strange sugere desde o princípio a importância conferida às sutilezas presentes no cânone do personagem. Além disso, relíquias utilizadas pelo mago para expandir seus poderes, como o clássico Manto da Levitação e o Olho de Agamotto, desempenham um papel importante dentro do roteiro do longa, sejam relacionado ao desenvolvimento da trama, sejam atuando como catalisador dos momentos de humor do filme. Aliás, percebi o uso do humor em “Doutor Estranho” como um elemento cujo sentido é ligeiramente diferente daquele imbuído à maioria das obras do universo cinematográfico da Marvel. Se normalmente as piadinhas vêm como um artifício de ligação, fazendo a ponte entre duas cenas ou servindo como encerramento para uma sequencia, aqui o humor surge como algo inerente à própria ação, semelhante ao que acontecia nos filmes solo do Homem-de-Ferro, quando “soar engraçado” fazia parte da personalidade do protagonista.

E aí também acho que vale a pena finalizar este texto chamando uma reflexão que de vez em quando pipoca na minha cabeça. “Doutor Estranho” levou mais de um milhão de pessoas aos cinemas brasileiros em seu fim de semana de abertura e dominou cerca de 45% de todas as salas do país. Ótimo. Marvel Comics é super divertido. Leio desde criança e não vou parar. Mas também aprendi que tão intrigante quanto se deliciar nas páginas dos quadrinhos, é conhecer a vida e as referências dos seus autores e, sobretudo, como essa salada toda de obra, escritores, desenhistas, cineastas, distribuição e acesso está relacionada com o mundo em que a gente vive. Quando eu era adolescente e passava minhas tardes quase que exclusivamente ouvindo a discografia do Nirvana e subindo e descendo escalas no violão de nylon, acabei sendo levado também a pesquisar a biografia de Kurt Cobain. Naquela época, foi graças ao despertar desse interesse que conheci o trabalho de muitas bandas que se tornaram fundamentais na minha vida, como o Sonic Youth, o Dinosaur Jr e o My Bloody Valentine. E o que é mais importante: conheci o horizonte vasto de ideias que o próprio Cobain usou como inspiração. E, ainda que fossem geniais, a maior parte dessas ideias nunca alcançou múltiplos discos de platina ou transmissões mundiais de seus shows.

Com isso, quero dizer que a realidade da vida é muito dura com os artistas e que se nós não os procurarmos, é provável que aconteça o que Brian De Palma citou no documentário sobre sua vida assistido por mim no Janela: “Nós somos criticados com base no modismo da época. Quando você lança alguma coisa, ninguém gosta e ninguém vai atrás, mas aí o tempo passa, o modismo acaba e as pessoas passam a valorizar o seu trabalho”. Dessa forma, pense aí que se “Doutor Estranho” está em metade das salas de cinema do Brasil, isso significa que numa razão inversamente proporcional há muitos e muitos e muitos outros filmes espetaculares que nunca terão sequer a chance de serem lançados no país. E, partindo da ideia de que se você é um garotinho juvenil, inocente e bebedor de leite com pêra que está pirando nessa de Marvel Comics, é fundamental que você tenha a editora como uma porta de entrada para outras coisas e não como a fonte de todo seu repertório.

neura


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