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Crítica de Venom (2018)

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Venom é um vilão do gibi do Homem Aranha que ficou popular na década de 1990 devido a sua exuberante força física e sua virilidade latente – tudo aquilo que faltava aos leitores de histórias em quadrinhos da época. Eu sei porque eu estava lá. Agora, duas décadas depois, o personagem ganha seu primeiro longa metragem solo, recheado de arrombamentos narrativos e apontado pela crítica como uma das piores coisas do mundo.

venom_2Honestamente, Venom, dirigido por Rubem Fleischer e estrelado pelo ator cearense Tom Hardy, nem é um filme de todo mal. O longa conta a história do repórter Eddie Brock (Hardy), que vai se lascando na vida até virar um freelancer liso, largado pela mulher e residente num “muquifo” com um vizinho guitarrista altamente inconveniente. No meio de uma apuração insana para uma reportagem investigativa, ele invade o laboratório de um cientista paquistanês milionário e maléfico (vivido pelo ator Riz Ahmed). Lá, acaba virando o hospedeiro de uma forma de vida alienígena chamada Venom, que passa a ser o seu… amiguinho interior. O resto é irrelevante.

venom_1De início, existem duas coisa legais sobre essa confusão toda: a primeira é que a interpretação de Mad Max no papel de Eddie Brock é cativante e realmente evoca os ares de um jornalista ressacado. Talvez, para quem habite lugares onde se trabalha mais do que se vive, tipo São Paulo, a performance de Hardy possa parecer incongruente com a realidade disciplinada e fria da imprensa, mas aqui no nordeste, onde se trabalha e se bebe na mesma proporção, a identificação é certa. Assim, há momentos em que “Venom” descamba para o humor total, como na cena em que Brock, interpretado com ares de palhaço,  invade um restaurante chique e, completamente doidão, se deita num tanque de lagostas vivas – nada muito diferente do que talvez fizesse o finado Hunter Thompson em ”Medo e Delírio em Las Vegas” ou seu alter-ego de “Rum – Diário de um jornalista bêbado”, criaturas nascidas em solo ianque, mas genuinamente nordestinas na abordagem.

A segunda coisa legal é que essa ambientação de apartamento xexelento, ressaca, simbiose, conexões telepáticas, vizinho insolente e falta de mulher traz à obra um fôlego de filme B. Assim, é impossível não relacioná-lo ao clássico “Basket Case”, de 1982, escrito e dirigido por Frank Henenlotter. A grande diferença é que “Venom” acaba ficando no armário e não se assume. Dessa forma, as intermináveis sequências de ação do longa – construídas digitalmente – prejudicam sua amarração estética ao transformar o que seria um perfeito terror B num filme de porradaria genérico. Além disso,  a ausência de nojeira dá um tom sóbrio à figura do monstrão-título, cujo semblante praticamente implora para uma interpretação mais gosmenta.

venom_3Fico encucado, inclusive, com a ideia de que se “Venom” fosse um filme dos anos 1990, da época em que o bichão realmente apavorava nos quadrinhos, a equipe de produção teria de rebolar para criá-lo à base de efeitos práticos. Assim, talvez os inúmeros problemas de estruturação narrativa e storytelling que eu nem cheguei a comentar neste texto quem sabe seriam deixados de lado frente a um disbunde visual como os de “A coisa”, de 1985, ou de “A Bolha Assassina”, de 1988.

Possibilidades à parte, “Venom” é um filme até bem executado tecnicamente na maioria de suas cenas, mas sofre com um dos males mais pertinentes nos tempos do MCU: a falta de um vilão decente. Narrada de forma paralela ao arco vivido por Brock, existe ainda a história de um outro simbionte chamado Riot, que viaja da Malásia até os EUA para encarnar no cientista paquistanês cujo laboratório fora invadido pelo protagonista no primeiro ato do longa. Esse simbionte encarna numa vovó, numa criança, num poodle toy e, enfim, no personagem de Riz Ahmed. Levando o próprio Ahmed em consideração na equação, o resultado é assim: De um lado, temos o Venom de Tom Hardy, que é um brucutu clássico, viril, de dente amarelo, saído até do Mad Max. Do outro, temos… um poodle, uma velha, uma criança, um cientista magrelo e seu Riot. Como disse o mestre do terror Clive Barker, “uma história só é tão boa quanto seu vilão” e, nesse caso, ele não passa muita confiança…

Finalmente, “Venom” é um filme anacrônico, que insiste em chamar o espectador para a década de 1990, somente para quando está prestes a seduzí-lo por completo, deixar que a linguagem e  forma cinematográficas contemporâneas arrastem tudo pro bueiro.

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