Neurotextos

Crítica de The Predator (2018)

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Disseram que tinha um filme novo do Predador no cinema. Eu disse “comé que é a história?” e fui lá ver. Tratando-se na verdade de um crossover da franquia do bicho mais “ugly motherfucker” da história com a revitalização da série Loucademia de Polícia e com o filme independente norte-americano “O Aprendiz de Satanás”, este novo capítulo da saga dos caçadores intergalácticos é uma zona. Só faltou mesmo a polícia chegar ao final do longa pra encerrar a produção antes que o constrangimento fosse maior.

Protagonizado por um militar galego americano qualquer aí, The Predator, no original, foi escrito e dirigido por Shane Black (roteirista dos quatro “Máquina Mortífera”) e até que propõe arcos narrativos interessantes. O grande, Grande, GRANDE problema é que são arcos demais e em tons dramáticos muito diferentes: Tem o da cientista gatona que é um sci-fi sóbrio de laboratório. Tem o de uma trupe de soldados exonerados que tinha tudo pra ser varonil e ‘testosterônico’, mas que quase descamba numa subtrama digna dos trapalhões. Tem também o do galego principal, cujos amigos são mortos durante a chegada do famigerado alienígena à Terra. E, por fim, tem o de uma porra de uma criança nerd e autista que recebe a armadura do Predador pelo correio. Esse último tá mais pra  “Zathura”, “O último Grande Herói” (também escrito por Black) ou quiçá “Jumanji”, que qualquer coisa.

predador_critica_corpo_1A consequência dessa pluralidade dramática é que ora somos expostos a momentos de total gore, com um soldado pendurado na selva com os estrombo pra fora do bucho, ora assistimos a uma criança pedindo doces ou travessuras usando a máscara do Predador num subúrbio norte-americano. Assim, essa mudança brusca na articulação dramática dos arcos vividos por cada personagem é um fator que prejudica a imersão do espectador e acaba por evocar o ridículo dentro do filme. Além disso, a obra, ambientada na atual indústria dos easter eggs, spin offs e o caralho, comete algumas auto-indulgências para fazer referência aos outros longas da série – Tal decisão deveria se projetar na tela através de sutilezas, mas acaba tomando tanto  espaço dentro do roteiro, que atropela até o desenvolvimento primordial da história. Em determinada cena, por exemplo, a doutora gatona chega a olhar pro Predador em cima de uma mesa de operação e dizer “that’s a beautiful motherfucker”, contradizendo a frase clássica “That´s an ugly motherfucker”, presente em todas (ou quase todas, sei lá) prequelas. Enfim… Uma esculhambação.

Mas tudo bem. Esses problemas aí são muito intelectualizados. Nada, absolutamente nada se compara ao momento em que o longa homenageia a cena icônica da diarréia de “Débi & Lóide –  Dois idiotas em apuros” quando o galego protagonista CAGA o dispositivo de invisibilidade do Predador engolido anteriormente para passar despercebido pela revista do exército. O protagonista CAGA o dispositivo de invisibilidade do Predador, só repetindo. E é numa sequencia precedida pelo efeito sonoro de um ronco intestinal pedindo arrego.  Depois disso, infelizmente, nenhum personagem pode fazer discurso de auto-ajuda ou de superação e sair, digamos, limpo. Se havia um protagonista ali, o que restou foi apenas… um velho cagão.

predador_critica_corpo_2E tem mais. Desta vez buscando inspiração no cordelista pernambucano Leandro Gomes de Barros, autor da famosa história “O cavalo que descomia dinheiro”, The Predator dá um jeito de incluir na trama o que eu chamaria de “O cachorro que vomitava granadas”. Após o alienígena-título soltar na selva uns monstrengos de caça a fim de tocar o puteiro, um dos espécimes é, digamos, lobotomizado com um tiro de .50 na têmpora e fica amiguinho da tal cientista gatona. Eventualmente, durante as batalhas, ele aparece e vomita bombas para ela jogar nos outros. Sinceramente, é uma ideia fabulosa, esferoblástica, retumbante, mas, infelizmente, muito mais bem adaptada por Ariano Suassuna em sua obra e eventualmente levada à tv dentro da minissérie O Auto Da Compadecida.

É tanta ideia jogada ao vento dentro desse filme, que sobrou até uma menção ao fato de predadores possuírem DNA humano e estarem, assim, “evoluindo”, só para ser esquecida em seguida. A turma realmente não perdoa… Como diz aquela frase de internet, “se organizar direitinho, todo mundo transa”, e desta vez parece que comeram até o Predador.

neura


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