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Crítica de Demolidor (3 temporada)

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Em 2015, a Marvel avançou uma etapa importante dentro de seu cronograma de dominação mundial da cultura pop: colocou no ar a série do Demolidor para o Netflix. O sucesso foi gigantesco, tão grande que acabaram fazendo uma segunda temporada nas coxas e uma penca de seriados derivados, sendo sempre um pior que o outro até culminar no horripilante Punho de Ferro protagonizado por Felipe Dilon. A emulação da estética concebida na obra de 2015 foi repetidamente sucateada por suas sucessoras até só restar o descrédito das incursões marvelísticas no universo do streaming e o emputecimento do público. Então, dentro daquela velha mecânica “dois passos pra frente, um pra trás”, o Homem Sem Medo retorna para sua terceira temporada numa tentativa da Casa das Ideias de reabilitar sua integridade e dar um agrado a quem acompanha o universo integrado dos heróis das telinhas.

Wilson Fisk, o Rei do Crime de coração partido

Wilson Fisk, o Rei do Crime de coração partido

Agora, a aposta foi fazer um mea culpa e admitir que não se deve mexer no time que está ganhando. Portanto, se no primeiro ano da série, uma das coisas mais legais era o uniforme improvisado do Demolidor, tirado da minissérie de 1993 “O Homem Sem Medo”, de Frank Miller e João Marmita Jr, na nova temporada, ele foi trazido de volta. Isso é bom, pois a indumentária, concebida a partir peças de roupa comuns, implica na vulnerabilidade do personagem e aumenta a sensação de perigo e temerosidade de suas cenas de luta. Enquanto isso, o velho traje vermelho com máscara de demônio foi ressignificado, surgindo na trama não só como um artifício narrativo utilizado para incriminar o herói de crimes que ele não cometeu, como também num símbolo a ser superado emocionalmente.

E, por falar em cenas de luta, novamente ele está lá: o plano sequencia de minutos e minutos em que o Demolidor bate em trezentos cabras, se arromba todinho e, quando parece que não vai conseguir, dá um jeito de se salvar. Teve na primeira temporada, foi anabolizado na segunda e reaparece ainda mais ignorante na terceira. Então, já existem fake news afirmando que a quarta temporada vai ser inteira filmada em plano sequencia. Não que eu esteja reclamando, mas é o que disse no parágrafo acima: não se mexe em time que está ganhando, porém, como isso aqui não é um esporte, a consequencia é que narrativamente a coisa pode até funcionar, mas perde o ineditismo e a sensação de surpresa que só uma nova e boa ideia pode causar no espectador.

Rei do Crime enfezado

Rei do Crime enfezado

Em se tratando de conflitos e autenticidade, inclusive, Demolidor não é exatamente uma obra filosófica, algo que fica claro no episódio em que o Rei do Crime faz alusão entre o amor romântico e a “prisão do Homem”. Ainda assim, Billy Corgan retorna ao papel de Wilson Fisk com destreza. Ele está sempre “enfezado”, tristinho, com um olhar vago dirigido ao mundo, como se quisesse o tempo inteiro se render ao arquétipo do vilão, mas ficasse preso à questões morais não muito substanciosas. Na prática, é uma interpretação interessante, originando um personagem carismático que assume a posição de antagonista e transforma a história através de uma trama quase complexa de politicagem, corrupção e influência à medida que suas emoções importam

Mercenário bom é Mercenário doidão

Mercenário bom é Mercenário doidão

menos que seus interesses.

Então, se na segunda temporada de Demolidor e nos vários spin offs, a Marvel tentou amarrar seu universo dos seriados de streaming com uma história mística cheia de ninjas mortos-vivos e superpoderes, o inimigo aqui voltou a ser humano. Envolvidos em tramóias burocráticas e hierarquizações de poder, os personagens da série vivem uma realidade tão cheia de nós-pelas-costas, que parece até a corrida presidencial brasileira de 2018 ou uma ida de Franz Kafka ao cartório. Paralelamente, Matt Murdock (Matt Murdock é o nome civil do Demolidor) é um cristão dividido pela fé, angustiado e indeciso se deve dar uma segunda chance aos inimigos ou extirpar os problemas pelo uso da força. Essa dualidade é particularmente interessante se pensarmos que ela está gerando treta entre os homens há uns 3 mil anos. Ainda assim,  por ser um seriado que precisa ser compreendido pela maioria das pessoas, a discussão nunca é abordada ou aprofundada como merece.

Considerando que nos aspectos conceituais, Demolidor fica em cima do muro – o que, convenhamos, não prejudica muito a série quando levamos em conta a força (e a diversão) de ver um personagem de quadrinhos em carne e osso –  resta, portanto, à retratação de personagens ainda inéditos se tornar o grande atrativo do novo ano do seriado. E o escolhido da temporada é um dos vilões mais psicopatas, insanos e queridos do Homem Sem Medo, o Mercenário.

Vamos lá: De forma geral, tem duas coisas muito marcantes que o Mercenário fez nas histórias em quadrinhos. A primeira foi matar a personagem Elektra empalada por sua própria adaga sai depois de soltar a icônica frase “você é boa, garota, mas eu…. Eu sou mágico”, em Daredevil #181. A segunda foi sua participação na história “Roleta Russa”, publicada originalmente em Daredevil #191, quando Matt Murdock, após espancá-lo até quebrar todos os seus ossos, faz uma visita ao seu quarto no hospital e brinca de roleta russa com o vilão, que só consegue mexer os olhos. E além disso tem o traje emblemático dele, que faz alusão ao seu nome original “Bullseye”, algo como “Na mosca” em português, devido a sua característica fundamental de ter a mira infalível. O grande problema é que a roupa inexiste no seriado e, dessas duas participações clássicas, a segunda acontece por causa da primeira e, na série do Netflix, quando o Mercenário aparece, Elektra já partiu desta pra uma melhor há um tempo da miséria.

O Demolidor em sua identidade civil, Matt Murdock

O Demolidor em sua identidade civil, Matt Murdock

Outra coisa é que o Mercenário é, nas histórias em quadrinhos clássicas, o assassino do Rei Do Crime. Ele está para o Demolidor como Darth Vader está para Luke Skywalker e é o seu mais equilibrado e mortal desafio. É o seu rival, o “dragão”. No seriado, porém, a aposta dos roteiristas foi contar uma história de origem do vilão, mostrando seu gradual mergulho no abismo da loucura. Honestamente, histórias de origem de vilão podem ser meio frustrantes, já que um dos aspectos que evoca o medo no ser humano é justamente o desconhecido que obscurece a verdade e impulsiona o mistério e a imprevisibilidade. E, no caso de um sujeito insano e inconsequente, isso é ainda mais importante. Dessa forma, o Mercenário soa insípido durante os treze episódio de Demolidor, sem nunca ameaçar o posto de Fisk como rival do herói e sendo somente… um capanga. A bem da verdade, porém, lá pelo meio da temporada, ele protagoniza uma das melhores cenas de luta com o protagonista dentro da redação de um jornal.

O que eu acho uma pena é que nas mãos do roteirista Jason Aaron e do (falecido) desenhista Steve Dillon, o Mercenário foi apresentado dentro da segunda série do Justiceiro para o selo Marvel Max, em PunisherMAX #6, de 2011, numa abordagem condizente e afiada com o tom da série do Demolidor para o Netflix. E, embora na última cena do seriado seja colocada a deixa de que o vilão poderá voltar no futuro, enfim, insano como nos quadrinhos, o sentimento é de que não precisava de treze capítulos de série para apresentar o personagem como conhecemos há anos. Ainda assim, Demolidor é um seriado que encanta pela técnica, pelas coreografias de luta e pelas interpretações. Então, pode até ser que a saga do Homem Sem Medo no streaming não seja esteticamente ousada ou empolgante como foi no início, mas é um passatempo divertido pra quem gosta de ver uns macho se batendo e sangrando sangue de mentirinha.

neura


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