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Crítica de “A Casa Que Jack Construiu”

Lars e seu espelho do Harry Potter

Lá Vem Três (horas de filme) e seu espelho do Harry Potter

Lars Von Trier ataca novamente. O filme da vez se chama “A Casa Que Jack Construiu” e conta a história de um serial killer que mata mulheres e armazena seus corpos numa câmara frigorífica. Estrelado por Matt Dillon no papel do matador e constituído por uma complexa montagem concebida a partir de metáforas gráficas, planos subjetivos, narrações em off e mais umas série de possibilidades estéticas, o longa é, pra variar, uma autoindulgência histérica e narcisista do diretor. Apesar disso, conta com a engenhosidade de um roteiro que entrega bons diálogos e boas cenas quando não cede à masturbação de frente pro espelho.

Matt Dillon é o tal do Jack

Matt Dillon é o tal do Jack

O personagem Jack, vivido por Matt Dillon, é enigmático. Psicopata frio e cheio de duas conversas, é uma lapa de doido cujo desenvolvimento está atrelado a sua imprevisibilidade. O roteiro o constrói como um sujeito que tanto pode assumir o papel de vítima quanto de matador à medida que a situação em que ele se envolve progride. Elaborado em cima de projeções, culpa e da exploração da ingenuidade alheia, Jack sofre, faz  sofrer e soa ameaçador e sádico sempre que está em tela. Incomoda, porém, que para quem vive a vida aqui no nordeste, seja inegável que lars no interior de Pernambuco Jack e seus papinhos já estariam mortos há muito tempo. Isso é um pouco frustrante, mas cada um no seu quadrado, afinal, Von Tromba é dinamarquês e não, caruaruense.

Pronto. Agora vem a parte da esculhambação total. Se Jack serve bem ao arquétipo do serial killer e possui até mesmo um desenvolvimento aprofundado através da retratação de suas manias, obsessões e retórica infalível, o longa permanece na superfície da filosofia e agoniza à luz do pedantismo característico de Lars. Misturando a Divina Comédia com os irmãos Cohen com Woody Allen com o documentário Ilha das Flores, Von Trier secciona o filme com uma série de pausas na sua narrativa para introduzir uma verdadeira cremogema filosófica na forma de apresentações de power point sobre a história da arte e a história do mundo. Fazendo Jack conversar sobre o primeiro capítulo de qualquer livro de introdução ao pensamento nietzschiano com um personagem inicialmente desconhecido, o longa solta uma ‘vontade de poder’ aqui, um ‘amor fati’ ali e simplesmente acaba esquecendo que é… uma ficção.

E, embora as cenas de matança fujam dos recursos narrativos característicos do gênero de terror, elas funcionam muito bem. O grande problema é que dadas as incursões na filosofia de boteco que pontuam a narrativa, a sensação que fica é a de que nenhuma daquelas cenas serve pra nada além de alimentar o ego do famigerado diretor. Com um ato final mais doido que uma tia minha que terminou seus dias no sanatório, “A Casa Que Jack Construiu” é um filme sobre a descoberta e a ressignificação da essência da vida do diretor, o que seria ótimo, se ele não estivesse fazendo isso pela enésima vez. Ainda assim, por contar com uma fotografia refinada e uma plasticidade convincente, o longa é a coisa mais próxima de “pop” que Lars já fez. Assista por sua conta e risco.

neura


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