Neurotextos

Breve republicação de Matadouro 5

Kurt Vonnegut, o devorador do tempo

Kurt Vonnegut, o devorador do tempo

Em Julho do ano passado, a editora Aleph, por meio de sua fan page no facebook, anunciou que havia adquirido os direitos de publicação da obra do escritor norte-americano Kurt Vonnegut e que o primeiro livro a ser lançado seria  “Cama de Gato”, de 1963, previsto para sair no segundo semestre de 2016. Vonnegut, que é um mero desconhecido em terras brasileiras, porém, é um dos grandes autores ianques do século 20 e projetou na ficção-científica o pano de fundo para traduzir em palavras seu discurso anti-guerra e suas críticas ácidas e mau humoradas acerca da sociedade, do cristianismo, do sentido da vida e de quase tudo que é possível criticar.

Este é Lourenço Mutarelli. Ele é escritor e quadrinista

Este é Lourenço Mutarelli. Ele é escritor e quadrinista

Conheci o trabalho de Vonnegut graças a Lourenço Mutarelli, de quem sou muito, muito fã. Então, há mais ou menos uns quatro anos, quando ouvi falar pela primeira vez no nome de Kurt, fui atrás de sua obra e descobri que quase todos os seus livros estavam fora de catálogo no Brasil já fazia uns dez anos. O cara era tipo um gênio perdido na realidade inculta do nosso país, e, na ocasião, o máximo que consegui encontrar foram republicações de “Armagedon Em Retrocesso” e de “Um Homem Sem Pátria”, ambos livros de crônicas lançados no fim da vida do escritor, falecido em 2007. Li os dois e fiquei com aquela sensação ingrata de ter chegado numa putaria às 5h da manhã, quando todo mundo já tinha se ensebado noite adentro e a única coisa que havia restado para mim era a frustração contemplativa da minha capacidade de imaginar. E aí deixei o Vonnegut pra lá por uns tempos.

Mais ou menos em Maio ou Junho do ano passado, porém, eu estava procurando quadrinhos antigos na Estante Virtual e me deparei mais uma vez com o nome do escritor no livro “Pastelão Ou Solitário Nunca Mais”, que estava sendo vendido por… Três reais mais o frete. TRÊS REAIS. E aí joguei o nome dele na busca do site e, para minha surpresa, onde anos antes havia somente o vácuo deixado por suas antigas republicações, estavam agora zilhares de livros usados custando entre cinco e dez pilas. Comprei tipo uns seis ou sete de uma vez. O lance é que em todo lugar que você procura o nome de Vonnegut, é quase certo que o livro atrelado a ele como sua masterpiece é o “Matadouro 5” e esse aí realmente não tinha em canto nenhum, mas por ora eu estava satisfeito.

Esse é Kurt Vonnegut e ele era um gênio

Este é Kurt Vonnegut e ele era um gênio

Então, ao longo do último ano e meio, li tudo que pude sobre o cara, aguardando o momento em que a Aleph ia pôr de volta o nome do autor nas prateleiras das melhores e das piores livrarias do país. Vonnegut havia se tornado o meu escritor do coração e eu nem sabia. E aí, quando o mês de novembro deste ano chegou e “Cama de Gato” não havia sido posto à venda ainda, Paulo, um brother meu que trabalhava no ramo das livrarias, me apareceu com a notícia de que a L&PM havia republicado “Matadouro 5” numa edição pocket e que eu deveria me apressar se quisesse o meu, porque o livro estava vendendo mais que ingresso pro show do Wesley Safadão na Arena Pernambuco. Na minha cabeça, tal ocorrido só podia sinalizar uma coisa: Em vias da Aleph colocar à venda sua aguardada edição de “Cama de Gato”, que por sinal terá a capa criada por Lourenço Mutarelli, a direção comercial da L&PM, ainda detentora dos direitos de algumas das publicações de Vonnegut, viu uma pequena brecha no mercado e deu a cara à tapa. Não faço ideia se o que ocorreu de fato foi isso, mas, na ocasião, só pude mesmo dar pulinhos de alegria, pois finalmente a luz no fim do túnel irradiou meus olhos com a esperança de ler, enfim, “Matadouro 5.”

Amazon. Dezessete reais. Frete Grátis. Translado. Correios. Finalmente “Matadouro 5” chegou e eu o li em dois dias. O livro é baseado nas vivências do próprio Kurt Vonnegut, que serviu ao exército americano durante a Segunda Guerra Mundial e sobreviveu ao Bombardeio a Dresden, cidade alemã que estava fora da rota das batalhas e foi reduzida a pó pelos norte-americanos em fevereiro de 1945. Na ocasião, Vonnegut e o destacamento do qual fazia parte se esconderam num matadouro subterrâneo de gado, identificado pelo número 5 estampado na entrada. Publicado em 1972, porém, “Matadouro 5” conta a história de Billy Pilgrim, um rapaz que após ter um contato com os habitantes do planeta Tralfamador passa a viajar pelo tempo de forma descontrolada e espontânea, sempre retornando ao episódio mais dramático de sua vida, que é justamente a experiência da Segunda Guerra Mundial.

matadouro_5_tralfamador

Este é um típico habitante do planeta Tralfamador

A escolha tomada por Vonnegut de manter todo o arco de Pilgrim na guerra em ordem cronológica enquanto manipula aleatoriamente os momentos para os quais o protagonista viaja pelo tempo é brilhante. A meu ver, é quase como se o autor estivesse inflando aquele velho clichê de que “à beira da morte, vemos toda nossa vida passar diante dos nossos olhos”, sendo que a experiência da guerra é estar frente à frente com a morte em tempo integral. Em certa altura, quando Vonnegut escreve que “Os americanos nus assumiram suas posições sob vários chuveiros alinhados ao longo de uma parede de azulejos brancos. Não havia registros que pudessem controlar. Tudo o que podiam fazer era esperar o que quer que estivesse a caminho. Todos tinham pênis encolhidos e bolas retraídas. Reprodução não era o principal assunto da noite”, a sensação é a de que aqueles chuveiros representam justamente a imprevisibilidade do amanhã e seus pênis retraídos simbolizam a insignificância dos seus valores frente a uma condição de vida tão alheia à sociedade como conhecemos.

Aliás, isso é algo que Vonnegut faz como quem vai ali na esquina comprar um pãozinho francês, mas que muita gente tenta, tenta e não consegue: despir a sociedade de sua moral a fim de exibir a relação contraditória que existe o homem e o desejo. Acredito que por isso, em “Matadouro 5”, o autor ainda nos apresente a uma caralhada de personagens de caráter duvidoso, como se exibisse pessoas cujo arco dramático houvesse sido plantado por nada mais, nada menos que a própria vida cotidiana nos Estados Unidos. E, quanto Billy “Peregrino” peregrina por inúmeras situações que expõem a realidade de quem nasce, cresce, cria filhos e encara o impacto da velhice chegar, conhecemos umas figuras como “Paul Lazzaro”, que se orgulha de nunca ter matado um inocente, apesar de contar um causo do assassinato cruel de um cachorro que tentou mordê-lo. A ironia de Vonnegut é tanta e tão brilhante que eu optei por escrever aqui um texto sem maiores firulas humorísticas justamente para não passar vergonha.

Então, uma vez que “Matadouro 5” chegou ao fim, e só salientando que na maioria dos livros de Kurt Vonnegut que eu li o fim não representa o desfecho de um arco narrativo, mas somente o momento em que o livro realmente termina, pois tudo um dia há de terminar, fui conferir a versão cinematográfica de “Matadouro 5”. Dirigida por George Roy Hill em 1972, a obra foi vencedora do Prêmio do Júri, honraria top golden pro ultra do festival de Cannes, na França. Os cult pira.

Este é Michael Sacks, que interpreta "Billy Pilgrim" em "Matadouro 5"

Este é Michael Sacks, que interpreta “Billy Pilgrim” em “Matadouro 5”

O filme foi recentemente lançado em DVD no Brasil dentro da Coleção Sci-Fi Vol. 2, um box com seis filmes fodões e um acabamento gráfico belíssimo, lançado pela Versátil Home Video e que ainda pode ser adquirido com grande facilidade nas melhores e piores lojas do ramo. Mas, para além dessas questões logísticas, o filme adapta fielmente a obra de Vonnegut, invertendo a ordem de algumas cenas e tomando uma ou outra liberdade poética. Após assistir à versão legendada de “Matadouro 5”, notei que se tornaram evidentes muitas novas piadas trazidas do texto original do autor e que se perderam na tradução para o português. Além disso, acredito que o longa de George Roy Hill é eficiente por conseguir fazer uma costura narrativa muito semelhante a do próprio Kurt Vonnegut, criando uma obra que, embora não seja linear, consegue capturar a atenção do espectador. E isso só foi possível graças a montagem do filme, que consegue dosar de forma adequada os momentos em que as cenas da vida de Billy Pilgrim se desdobrarão por longos minutos ou se serão apenas utilizadas como um recurso estético de raccord.

Mas, sem me alongar tanto, só o que resta dizer aqui é que ainda estou no aguardo que a editora Aleph dê à luz a tal edição de “Cama de Gato” que foi anunciada ano passado, pois gosto muito de acreditar que o livro, considerado pelos entendidos e canastrões como a primeira obra em que Vonnegut consolidou seu característico estilo narrativo, deve ser o ponto de partida para a republicação completa da obra do autor. Até lá, eu sigo garimpando sebos e escrevendo crônicas aqui no Neurose.

neura


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