Neurotextos

A preguiça é uma qualidade absolutamente subestimada

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A preguiça é uma qualidade absolutamente subestimada. Em 2000, o sociólgo italiano Domenico De Masi lançou um livro chamado “O Ócio Criativo”, alertando para a importância do tempo dedicado a não fazer nada. Dizem que ele estava prevendo a onda criativa que se inciaria com a ascensão da internet, mas eu não li e nem vou ler. Sabe como é: tenho preguiça. O ponto em que quero chegar, na realidade, é o ponto G da minha musa inspiradora, porém, na impossibilidade de aprender as artes da paquera e na consciência de minha inaptidão social, tudo que fiz foi me indispor para com a vida, revolvendo o corpo entre os lençóis da cama e tomando loooooongos banhos de chuveiro. Muita coisa, porém, aconteceu aí.

Nesse processo transcendental de procrastinar, enquanto o corpo vermina, a mente vai a horizontes distantes e inóspitos. Sabe como é: cabeça vazia, oficina das ideias. Pode ser uma viagem às luas de saturno ou um mergulho profundo na esquisitice da minha libido. Foi dos períodos deitado na cama, perseguido pelo barulho do ventilador de teto, mas sem coragem de levantar pra desligá-lo, ou das longas pausas sob o chuveiro, que saíram meus mais intrigantes planos para a conquista e dominação mundial. Com o tempo, foram aparecendo outros eus dentro de mim, e, nos momentos de ócio, afastado da vida social, nós começamos a conversar. Nessas horas, me acho tão interessante, tão plural…Realmente lindo até voltar à superfície dos meus pensamentos a lembrança de quanto tempo faz que eus não come ninguém.

a-preguiça-1Mas, enfim, nem todo mundo é bom em tudo e, ao mesmo tempo, nada é ruim em sua totalidade. Quando eu e os outros eus estamos conversando, coisas muito engraçadas acontecem. Às vezes, até a vida faz sentido. E isso é evocado quando nós olhamos metaforicamente a realidade que nos cerca e, de lá, retiramos a substância necessária à vontade de se levantar, desligar o ventilador barulhento e viver o que o mundo tem a oferecer. Do exercício dessa dinâmica, descobri duas coisas. A primeira é que eu sou obviamente esquizofrênico. É Mentira, é mentira… esse negócio das várias vozes eu tô inventando agora. É só um artifício narrativo, mas vamos lá: eu descobri duas coisas. A primeira é que sou um depressivo crônico e isso é verdade. A segunda é que eu sou, também, um esteta, ou, como costuma se chamar de forma vulgar, um artista.

Isso quer dizer os seguinte: à medida que encontro, nas vielas do meu cotidiano, formas de representar artisticamente a minha angústia e os meus anseios, vem projetada na realização de uma obra de arte, a felicidade. E aí, uma vez que essa tal representação se torna inquilina de um pedacinho de chão do meu cérebro, eu só sossego quando consigo a ordem de despejo. E vocês sabem como é: a justiça demora, tarda e falha que só porra.

Nos últimos cinco anos, entre uma epifania e outra, venho pulando de cartório em cartório para colocar pra fora três inquilinos insuportáveis que estão aqui dentro de mim, dividindo espaço comigo e com meus outros eus. Ninguém aguenta mais, mas não se enganem: meus eus são bem-vindos. O inferno são os outros. São livros, discos, livros-discos e até um filme, todos bem alimentados, fortes e robustos, mas presos em entraves burocráticos. É preciso matar um kafka diferente todo dia. Não há quem aguente. De todas, porém, o meu vizinho interno mais mesquinho se chama “A Banda Desenhada”, uma obra multimídia raceada com Seu Madruga que eu comecei em 2015, após revistar alguns arquivos do meu passado e redescobrir uma série de canções de amor, textos e rabiscos.

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A ideia surgiu com uma novela. Na época, eu estava lendo muito Kurt Vonnegut e achei que seria interessante escrever um livro sobre um cara que estava escrevendo um livro sobre uma banda. Depois de uns dois meses, descobri que o cara escrevendo o livro sobre a banda era eu e o resto não importava muito. Entrei em consonância total com o texto e, depois de mais uns dois meses, descobri que eu era a própria banda e não o cara escrevendo a história. Surgiu, enfim, a Cachalote, a “banda desenhada”. Compus do zero umas catorze ou quinze músicas, fui pra um estúdio e gravei onze. Foi exaustivo. Gravei quase todos os instrumentos e vozes. Durou uns seis meses até que o disco, chamado ironicamente de “Greatest Hits”, ficasse pronto, masterizado. Mas aí, então, ouvindo aquilo, comecei a sentir falta do cara que escrevia as histórias. E sabe como é: a gente dá a mão, o sujeito quer o braço, a gente dá o braço, o sujeito quer logo o cuzinho.

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Voltei a escrever, o que foi até interessante, mas só se tornou legal de verdade quando decidi desenhar a primeira página. Literatura é muito formal, precisava fazer mesmo era quadrinhos. Todos os eus da minha cabeça concordaram. Concordaram, inclusive, que a gente desenhava mal pra caralho e não sabia bem como fazer um gibi. Mas não tem problema, o ócio existe pra isso. E assim tem sido os últimos cinco anos. Dia após dia, com muita preguiça e má vontade. Nas frestas do cotidiano, estudei linguagem, narrativa gráfica, design e, enfim, no dia 28 de setembro de 2018, há oito meses, desenhei a primeira página decente do álbum “A Banda Desenhada”. Mês passado, na iminência de completar setenta páginas, filmei uma série de vídeos institucionais e videoclipes para completar o despejo, quer dizer, lançamento da obra, que deve rolar no segundo semestre.

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Até lá, é só burocracia. Mas tudo bem, ainda existe este site para eu relativizar o processo criativo.

 

neura


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